Humanidades

Programas de igualdade de gênero reproduzem lógicas coloniais e limitam avanços no Sul Global, aponta estudo
Análise publicada na revista científica PLOS Global Public Health questiona modelo dominante de “empoderamento” e alerta para efeitos adversos sobre a saúde e o bem-estar de mulheres e meninas
Por Laercio Damasceno - 02/01/2026


Getty Images


Um estudo internacional publicado neste mês na revista PLOS Global Public Health lança um olhar crítico sobre programas de igualdade de gênero implementados no Sul Global por grandes organizações internacionais. A pesquisa sustenta que iniciativas voltadas a mulheres e meninas, embora apresentadas como progressistas e emancipadoras, frequentemente reproduzem estruturas coloniais, capitalistas e patriarcais — o que compromete seus resultados e, em alguns casos, aprofunda desigualdades que dizem combater.

Assinado por Ogochukwu Udenigwe, Judi Aubel e Seye Abimbola, ligados à Universidade de Sydney e ao Grandmother Project, o artigo analisa documentos de 17 programas contemporâneos conduzidos por ONGs internacionais em países da África, Ásia e América Latina. A conclusão é contundente: a agenda global de igualdade de gênero tem sido moldada por uma lógica neoliberal que transforma mulheres e meninas em instrumentos de crescimento econômico, em vez de sujeitos políticos com histórias, saberes e prioridades próprias.

“Grande parte desses programas trata o empoderamento como sinônimo de inserção no mercado de trabalho ou aumento de produtividade, sem questionar as estruturas que produzem pobreza e exclusão”, afirma Udenigwe, pesquisadora de saúde pública e autora principal do estudo. Segundo ela, o resultado é a “feminização da responsabilidade”, em que mulheres acumulam obrigações econômicas e domésticas sem apoio estrutural do Estado ou das comunidades.

Quatro padrões recorrentes

A análise identificou quatro padrões centrais nos programas avaliados. O primeiro é a hierarquização do conhecimento, na qual saberes locais e práticas históricas de organização feminina são ignorados ou tratados como inexistentes. Conceitos como “espaços seguros”, por exemplo, são apresentados como inovações importadas do Norte Global, apesar de terem raízes profundas em tradições comunitárias africanas e indígenas.

O segundo padrão é a culturalização da violência. Em muitos documentos, práticas de violência de gênero são atribuídas quase exclusivamente à “cultura local”, o que, segundo os autores, reforça estereótipos racistas e obscurece fatores estruturais como desigualdade econômica, heranças coloniais e dinâmicas globais de poder. “A violência passa a ser vista como um problema cultural do Sul Global, enquanto no Norte é tratada como desvio individual”, observa Abimbola.

Tabela. Resumo dos documentos.

O terceiro eixo crítico é a ideia de que o trabalho é inerentemente libertador. Programas que promovem emprego ou empreendedorismo feminino raramente questionam a qualidade, a exploração ou a precariedade dessas atividades. “Trabalhar, por si só, não é garantia de autonomia nem de bem-estar”, diz Judi Aubel, antropóloga com mais de duas décadas de atuação no Senegal. “Sem redistribuição de poder e reconhecimento do trabalho de cuidado, essas iniciativas tendem a falhar.”

Por fim, o estudo aponta a universalização acrítica dos direitos humanos, frequentemente baseada em noções individualistas ocidentais, que entram em choque com formas coletivas de organização social. Essa abordagem, afirmam os autores, pode enfraquecer redes comunitárias que historicamente sustentam mulheres e meninas.

Contexto histórico e disputa de narrativas

A pesquisa se insere em um debate mais amplo sobre o papel das ONGs internacionais desde os anos 2000, período marcado pela consolidação da ideia de gênero como “bom negócio” — a chamada smart economics. Campanhas globais passaram a retratar meninas do Sul Global como “investimentos promissores” capazes de tirar países inteiros da pobreza.

Para correntes feministas decoloniais, essa narrativa ignora o impacto duradouro do colonialismo e desloca a responsabilidade por injustiças sistêmicas para indivíduos. “Quando o foco está apenas em mudar comportamentos ou capacitar pessoas, o sistema que produz desigualdade permanece intacto”, resume o artigo.


As conclusões têm implicações diretas para políticas públicas, financiamento internacional e avaliação de impacto. O estudo recomenda uma “desvinculação” de narrativas ocidentais e a adoção de perspectivas feministas decoloniais, que reconheçam a pluralidade de experiências de gênero e valorizem conhecimentos produzidos no próprio Sul Global.

“Não se trata de negar a importância da igualdade de gênero”, afirma Udenigwe. “Trata-se de perguntar a quem esses programas realmente servem e quem define o que é emancipação.”


Ao colocar em xeque pressupostos amplamente aceitos no campo do desenvolvimento internacional, o artigo deve alimentar debates entre formuladores de políticas, doadores e organizações da sociedade civil. Para os autores, sem essa revisão crítica, iniciativas de igualdade de gênero correm o risco de produzir apenas avanços parciais, temporários — ou até contraproducentes.


Detalhes da publicação
Uma perspectiva feminista decolonial sobre programas de igualdade de gênero no Sul Global - Ogochukwu Udenigwe, Judi Aubel, Seye Abimbola - Publicado em: 7 de janeiro de 2026 - https://doi.org/10.1371/journal.pgph.0005556

 

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